![]() |
|||||
![]() |
|||||
|
Ler
Livro de Visitas |
|||||
|
Deus abençoe os
visitantes desde 15/01/2002
|
Subliminaridade 11 |
||||
|
ALVARO VELLOSO DE CARVALHO
No. 24 - 25/08/00 Passo por uma banca em Ipanema e vejo que a capa da Newsweek traz Joe Lieberman, candidato a vice-presidente do Partido Democrata. A referência, como não poderia deixar de ser, é à religião de Lieberman. Me pergunto imediatamente - alguém vai votar em Lieberman só porque ele se diz judeu ortodoxo? É óbvio que não. Mas o pior não é que a Newsweek destaque como tema relevante de campanha o que não é tema relevante de campanha - isso é só a politicagem que qualquer pessoa sensata espera das revistas esquerdistas americanas (Time e Newsweek) em época de eleição. O que realmente me incomoda nessa história é um sujeito favorável ao aborto em qualquer circunstância, favorável a todos os bombardeios criminosos que os EUA lançaram sobre outros países nos últimos anos, um sujeito que condenou verbalmente Bill Clinton mas foi incapaz de votar contra ele no processo de impeachment, que apresentou evidências favoráveis a Clarence Thomas na época das absurdas acusações de abuso sexual levantadas contra ele, mas mesmo assim votou contra sua nomeação; o que me incomoda é que esse sujeito seja apontado como religioso ortodoxo, como seguidor fiel das normas de sua religião, uma religião que condena veementemente o adultério, o falso testemunho, o assassinato de inocentes. Fiquei até com pena do leitor do "Globo", que, acreditando no leu no próprio "Globo" (mais sobre isso abaixo), disse que não é verdade que existam judeus contra Lieberman, porque Lieberman "pertence ao restrito rol das pessoas de bem", pois "manifesta seu amor a Deus, ao ressaltar sua fé e religiosidade" e, portanto, os judeus contrários à sua candidatura só podem ser "judeus não conhecedores de suas tradições, e a estes incomoda o fato de haver um homem que se orgulha de suas próprias tradições." Fiquei com pena por causa do grau de desinformação do leitor, mas, por outro lado, alguém ainda fica surpreso ao ver um seguidor de uma religião descumprir linha por linha dos mandamentos dessa religião? Não nos surpreendemos mais, porque este é um dos traços característicos da religiosidade moderna. Ter uma religião, nos tempos atuais, não significa mais obedecer às ordens reveladas por Deus e transmitidas pela tradição religiosa. Nada disso. A religiosidade contemporânea não admite que ninguém lhe exija o que quer que seja. Ter uma religião, na mentalidade atual, é apenas declarar externamente sua crença em Deus, ou, o que é ainda pior, em "algo transcendental", e escolher que mandamentos da religião ainda devem ser obedecidos, quais "estão obsoletos", quais "devem ser adaptados às circunstâncias" - e se sentir muito bem e muito santo por isso. O Deus exigente, o Deus que precisava ser obedecido e seguido, foi abandonado por um "deus" que praticamente implora aos fiéis que venham até ele, prometendo mundos e fundos sem exigir nada em troca. "Se Me aceitas, Israel, Eu sou Teu Deus", dizia Deus no Antigo Testamento; no "testamento" midiático atual, não é mais Deus que tem de ser aceito por Israel: é Ele que tem de aceitar Israel. Quem lê alguma coisa dos Atos dos Apóstolos vê que eles iam às cidades e pregavam: falavam do Cristo, relatavam os milagres etc.: quem quisesse, que os seguisse. Eles não iam alterar as histórias ou mudar a moral para amealhar mais seguidores. Comparem isso com o repulsivo espetáculo dos "padres" usando recursos de marketing para atrair fiéis, da suavização da mensagem cristã para "atrair o homem moderno", e verão a que ponto se rebaixou a religião. É só num contexto desses que um defensor do aborto pode se dizer "judeu ortodoxo"; que pode surgir uma associação das "católicas pró-aborto"; que gays podem fazer passeatas exigindo sua admissão na Igreja. Esse "sentimento religioso", que nada exige do fiel e que não o obriga a mudar de vida, é característico das seitas New Age. São elas que enfatizam o "sentir-se bem" e o "aceitar-se a si mesmo" em lugar dos "mandamentos repressivos" das religiões tradicionais. Pois é: a nossa cultura é tão pervertida que,nela, as religiões tradicionais são entendidas como se fossem seitas New Age...
SÉTIMA ARTE - E aí, o que você trouxe da locadora? - Três filmes: "The Thirteenth Floor", "The Ninth Gate" e "Shattered Image". - O que é isso, curso de satanismo aplicado, em três lições? Mais ou menos, caro leitor, como você pode verificar a seguir.
The Thirteenth Floor é uma ficção científica cartesiana. OK, eu sei que, na linguagem corrente, "cartesiano" é sinônimo de "racional", e o termo parece inadequado para um filme inteiramente irracional, mas eu explico o que quero dizer. É que René Descartes é a principal influência intelectual por trás da trama deste filme, de resto, bastante banal. Quem dá a dica é o próprio diretor, que abre seu filme com o célebre "Penso, logo existo", escrito em inglês. Como se sabe, Descartes foi o pioneiro na mania dos filósofos modernos de "pôr o mundo entre parênteses", inaugurando o método da "dúvida radical". Esse método consiste em pôr tudo em dúvida até que se chegue a um ponto que não pode ser duvidado, o "ponto arquimédico", que servirá de base para todo o edifício filosófico que se seguirá. Descartes, sob a influência da maconha (e eu não estou brincando!), meditou sobre suas sensações duvidando de todas elas, para chegar à conclusão de que só poderia acreditar na própria dúvida, só poderia ter certeza do próprio pensamento, e, portanto, que era sua própria consciência que lhe garantia sua existência. "Penso, logo existo", porque, se penso, não posso duvidar de que existo. Mas, e o mundo exterior? Se a consciência garante a existência do eu, quem garante a existência do mundo exterior? Como a pergunta é irrespondível dentro das meditações que lhe antecederam, Descartes apela: o mundo exterior existe porque Deus não enganaria o homem, ao fazê-lo acreditar numa ilusão, quer dizer, o mundo existe porque Deus é bom. Saída engenhosa, mas nem um pouco filosófica, e, obviamente, a fraqueza da resposta deu origem a todo tipo de especulações sobre as "ilusões dos sentidos". Todo um filão da ficção científica explora essa incredulidade decorrente da falha no arrazoado cartesiano. Recentemente, em "Matrix", a humanidade inteira estava enganada, imaginando enxergar uma realidade que nada mais era que uma projeção holográfica, e precisava urgentemente da ajuda de uma seita de meia dúzia de iluminados lutadores de kung fu para se livrar da ilusão. The Thirteenth Floor é inteiro construído sobre essa premissa: e se o mundo em que vivemos for apenas uma ilusão, apenas um sonho na cabeça de alguém? Ou mais especificamente: e se formos apenas personagens de um jogo de realidade virtual, criados em computador? Seria como se os personagens do jogo "The Sims" tivessem vida própria e desenvolvessem suas vidas independentemente de que alguém jogasse, mas, quando houvesse alguém jogando, eles obedecessem aos comandos do jogador. E, de repente, um deles descobre que é apenas um personagem num jogo, e conversa a respeito com um dos jogadores. O pior é que os personagens foram criados à imagem dos jogadores e uma das jogadoras se desinteressa do marido e se apaixona pelo seu alter ego fictício. Parece complicado, e é mesmo. O filme brinca com essa passagem de mundo real ao mundo fictício, e explora a dúvida cartesiana (muito agravada depois por Fichte) residual nos espectadores. Não preciso nem dizer que, para quem acredita, como eu, que a arte deve falar às aspirações humanas superiores, porque tem uma função moral e pedagógica, um filme que explore dúvidas mórbidas e suspicácias imbecis é uma obra artística da pior categoria. The Thirteenth Floor tem bons cenários e atores razoáveis, mas não chega nem a ter efeitos especiais interessantes, que poderiam servir de motivo suficiente para sua existência. É uma gigantesca perda de tempo, construída em cima de uma idéia que, no fim das contas, e com o perdão pelo linguajar, não passa de uma babaquice. Algum tempo atrás, escrevi uma notinha (que foi publicada na minha finada, e futuramente ressuscitada home page pessoal) sobre a arte e o real. Destaco apenas o que escrevi sobre um aspecto distintivo das coisas reais, aquilo que Xavier Zubiri chama de "abertura essencial da realidade", que é uma percepção humana primordial negada por filmes idiotas como este: "O real se forma das múltiplas e indivisíveis determinações. Por exemplo, o ato real de escrever este e-mail inclui o cheiro da laranja no chão da sala, o barulho dos carros lá fora, a luz deficiente do fim de tarde, os meus pensamentos, o ato de escrever, etc. etc. etc. - é uma infinidade de determinações, percebida intuitivamente em qualquer experiência real nossa. Se retirarmos uma delas (por exemplo, o cheiro), o ato deixa de ser real - não é possível uma laranja sem cheiro."
Que tipo de demente pervertido escala a própria esposa para o papel de demônio num filme? Eu respondo: um demente pervertido chamado Roman Polanski. E nem é a primeira vez. A vida de Polanski tem sido um desastre atrás do outro, e não é por acaso. Em um de seus primeiros filmes, The Fearless Vampire Killers, a sua então esposa, Sharon Tate, é entregue a um dos vampiros do filme. Quem estudou um pouquinho do assunto sabe que os vampiros são símbolos de associações satanistas. Num dos filmes seguintes, talvez seu mais famoso até hoje, a entrega já não era mais simbólica: Rosemary's baby (que pelo menos não tinha a Sharon Tate como atriz principal) é a história de uma mulher estuprada por uma seita satânica para dar nascimento ao Anti-Cristo e da progressiva aceitação dessa condição por ela. Um ano depois desse filme, em 1969, Sharon Tate foi brutalmente assassinada num ritual satânico conduzido pela seita de Charles Manson. Depois disso, e aparentemente não satisfeito, Polanski embebedou e estuprou uma menor nos EUA e, no início do processo, quando o juiz permitiu que ele terminasse o filme que estava fazendo na Europa, fugiu e nunca mais pisou em solo americano. Há alguns anos, Polanski apareceu de casamento novo, com a atriz Emanuelle Seigner, e ela apareceu como uma das peças que quase enlouquece Harrison Ford em Frantic. Nada demais. Então, veio Bitter Moon e provou que Polanski continuava um tarado maluco. O filme foi descrito por alguns críticos como "perturbador", mas não é perturbador: é perturbado. E lá estava a esposa de Polanski, como a protagonista de um jogo erótico enlouquecedor e degradante para o personagem principal, encarnado por Peter Coyote. Mas, com este The Ninth Gate, Polanski se superou. Antes de comentá-lo diretamente, acho que preciso fazer algumas observações. O único crítico de cinema que levou em consideração os elementos de satanismo nos demais filmes de Polanski, e reparou que, com The Ninth Gate, o cara não estava brincando, foi o nem sempre confiável e às vezes muito maluco colunista do WorldNetDaily Stuart Goldman. Não tenho a menor dúvida de que, para o crítico comum, as observações de Goldman, assim com as minhas, parecem estranhas e deslocadas, produtos de mentes envolvidas em "antigas superstições religiosas". Os críticos, eximindo-se de analisar os elementos anti-espirituais nos filmes de Polanski, pretendem estar apresentando ao público resenhas objetivas, isentas. Acontece que não é preciso acreditar no diabo para notar que o satanismo desempenha um papel fundamental na obra de Polanski: não interessa o que o crítico pensa do assunto; interessa que o próprio Polanski acredita em satanismo e ele próprio, conscientemente, construiu seus filmes como apologias do diabo. Ignorar isto é ignorar o ponto central da obra dele para concentrar-se em detalhes periféricos sem importância. Pois bem, The Ninth Gate é a adaptação cinematográfica do best-seller El Club Dumas, de Arturo Pérez-Reverte (editado no Brasil, muito antes do lançamento do filme, pela Martins Fontes), e nada mais é do que a história de uma iniciação satânica. Um jovem e inescrupuloso avalista de livros é contratado por um estudioso de satanismo para encontrar as duas cópias remanescentes - além da que o próprio estudioso já possui - de um livro de um herege medieval sobre o diabo. O livro tem importância nos meios satanistas, porque eles acreditam que ele foi escrito em parceria com o próprio Satã. A pegada é que cada um dos três livros tem nove gravuras, sendo que, em cada um, três delas são assinadas por Lúcifer, e as demais são do autor do livro: juntando os três livros, o sujeito terá as nove gravuras "originais" e poderá realizar um ritual satânico que o unirá perpetuamente a Lúcifer, abrindo as portas do inferno. Por que diabos alguém seria imbecil a ponto de querer ir para o inferno mais rápido está além da minha compreensão, e a própria promessa satânica é uma contradição de termos: ao mesmo tempo que quem realizar o ritual irá para o inferno mais rápido, diz-se no filme que ele terá "poder sobre o próprio destino". Peraí: se o seu destino já está traçado - e executado - como é que você vai poder ter poder sobre ele?! A coisa toda é um nonsense, mas ninguém entende mais de nonsense do que Satanás, e, quando o próprio avalista de livros (Johnny Depp) consegue realizar o ritual, na última cena do filme, um imenso clarão invade a tela, dando a entender que o personagem atingiu a salvação eterna. Só que, muito pelo contrário, o que ele conquistou foi a danação eterna. O filme nada mais é que propaganda do capeta. É isso mesmo: o espectador desavisado sairá do filme com uma curiosidade mórbida a respeito de satanismo, e muitos se sentirão atraídos pela promessa de uma contra-iniciação como a retratada no filme. É o apelo do absurdo, o apelo da negação da realidade, da negação do bem - apelo cresce na mesma medida que a cultura se seculariza e as tradições espirituais perdem sua força. É por isso que não recomendo o filme a ninguém - e, depois, me arrependi de ter assistido a ele. E a esposa de Polanski, como aparece? Como eu havia dito, ela faz a enviada do diabo, um demônio responsável por guiar Depp e ajudá-lo a encontrar as gravuras que permitirão sua danação final. É interessante notar que, nos autos-de-fé do teatro cristão, o tema central é a disputa entre o Cristo e Satanás, representados normalmente por um anjo e um demônio, por uma alma individual. Neste filme, também é uma alma que está em disputa, mas não há anjos - não há o menor lampejo de possibilidade de salvação. Em nenhum momento Depp tem qualquer dúvida sobre o caminho a tomar, em nenhum momento ele tem qualquer reflexão moral. Não é que ele não ouça um apelo superior: simplesmente, não há apelo nenhum. Por isso, só aparece o demônio (na figura da esposa do Polanski!); não há nenhum anjo. O único conflito do filme é entre Depp e o sujeito que o contratou - para sabermos quem vai ter direito a realizar o ritual das gravuras (e, desde o princípio, sabemos que Depp é quem o realizará, porque é ele que tem a companhia do demônio). Por mais que eu tente, não consigo descrever em palavras o abismo em que se encontra quem idealizou e realizou um filme desses, um filme que não só faz apologia de tudo o que há de pior, de mais desprezível, mas que brinca com a questão mais séria de todas: o destino da alma individual depois da morte. O pior é que Polanski, segundo informa Goldman, foi fiel e cuidadoso. Assim como Rosemary's baby tinha a presença do chefe da igreja satanista de São Francisco, Anton LaVey, e os rituais foram, palavra por palavra, retirados da bíblia satânica, as figuras que aparecem neste The Ninth Gate foram retiradas de documentos ocultistas genuínos, e os rituais que aparecem no filme (inclusive uma missa negra, mas esta não é nem metade tão chocante quanto a do filme do Kubrick, Eyes Wide Shut) são tão autênticos quanto os de Rosemary's baby. E, assim como Rosemary era uma descrição perfeita do modus operandi de uma seita satânica, este filme é a descrição do envolvimento de um sujeito nas trevas do satanismo - sem que ele nem pense no assunto por um instante sequer, sendo movido exclusivamente por curiosidade e luxúria.
Shattered Image, que acho que nem passou nos cinemas brasileiros (ainda bem), é um filme de Raoul Ruiz. Para quem conhece o diretor, eu nem preciso dizer mais nada. Mesmo assim, ofereço um milhão de dólares a quem for capaz de me explicar o filme de Ruiz recentemente exibido no Brasil, Genealogias de um crime (não lembro o título original), com a Catherine Deneuve. Este Shattered Image, com a Nikita Anne Parillaud contracenando com William Baldwin, é mais compreensível, mas não muito mais. A história, maluca como sempre, é a seguinte: A personagem de Anne foi salva por Baldwin de uma tentativa de estupro, e eles viajam, se não me engano, para a Jamaica, em lua de mel. Mas ela tem sonhos estranhos com ela mesma. Nesses sonhos, ela é uma matadora profissional, que mata homens por encomenda de mulheres. Acontece que a matadora também acha que é real, e que a mulher em lua-de-mel é uma criatura de seus pesadelos noturnos. Essa vida dupla da personagem me fez pensar, a princípio, que estávamos diante de mais uma história sobre como a realidade é uma ilusão, na linha já comentada acima. Mas o próprio filme se encarregou de dirimir essa dúvida: a personagem realmente estava em lua-de-mel, mas um fato acontecido na Jamaica a deixou em estado de choque, e o que vemos na primeira hora e meia do filme são, na verdade, as lembranças misturadas a delírios da personagem internada num hospício. O filme mostra isso quando ela se recupera. E, aí, descobrimos que não se trata de cartesianismo ou idealismo fichteano, mas de freudismo mesmo. A personagem da matadora nada mais é do que a manifestação do id da Anne Parillaud, que, criatura frágil, no fundo desejaria libertar-se das amarras que a prendem aos cuidados do marido com quem acaba de casar-se. A matadora representa seus desejos reprimidos. E, seguindo a interpretação que nossos contemporâneos - sob a influência de um monte de gente, de Havelock Ellis a Marcuse - dão a Freud, o diretor aponta como caminho da sanidade para a personagem que ela siga seus instintos e ceda aos apelos do id. Por isso, depois que sai do hospício, para representar o começo de sua nova vida, a primeira atitude da personagem é assassinar o marido, que a tinha enganado (foi por descobrir o engano que ela ficou traumatizada e em estado de choque). Moral da história (1): não reprima seus impulsos. Moral da história (2): mulheres têm o direito de assassinar os maridos que as traem.
LENDO O LEITOR Há duas semanas, escrevi que os Sem Teto eram menos politizados que os Sem Terra, e não representavam um movimento de tipo revolucionário/comunista. Escrevi isso a respeito da manifestação no Rio Sul, e antes do saque organizado pelos Sem Teto a um supermercado carioca. Antes, também, de saírem nos jornais entrevistas com o líder dos Sem Teto, "Eric Vermelho". Mesmo assim, mais do que mereci o puxão de orelhas que levei do leitor Alceu Garcia, reproduzido abaixo: From: "Alceu Garcia" Prezado Álvaro Sou leitor assíduo de sua coluna e aprecio suas ótimas análises. Creio, porém, que vc se equivocou na avaliação do dito movimento dos sem teto. Vc afirma que os pobres que participaram da manifestação no rio sul querem capitalismo e não revolução. Não sou tão otimista. Aquela gente simplesmente não tem vontade própria, penso eu, visto que foram inteiramente doutrinados e programados por seus líderes - que não querem outra coisa senão uma revolução socialista. Eu presenciei pessoalmente uma passeata desse movimento na cidade, algumas semanas atrás. Posso lhe assegurar que a ideologia é exatamente a mesma do MST, já que o discurso era o mesmo: queremos teto e tal, mas acima de tudo precisamos construir uma sociedade justa e blá blá blá. Se os sem teto quisessem capitalismo jamais portariam cartazes dizendo para o pessoal do shopping que "a sua riqueza é a nossa miséria" e sim "a sua riqueza engendra a prosperidade que eliminará a nossa miséria ", ou algo assim. A manifestação foi pacífica, é verdade, mas vale lembrar que manifestações e protestos devem ser realizados em espaços públicos, não em locais privados como shoppings e supermercados. Nesses locais, protestos dessa espécie interferem nas atividades de comerciantes, trabalhadores e consumidores, afetando cada um deles. Vc assevera que o movimento dos sem teto é mil vezes menos politizado do que o MST. Ora, segundo li em O Globo, os manifestantes estão em dois acampamentos denominados "araguaia" e "nova canudos" e o coordenador-geral, ou que nome tenha o "quadro" que os lidera, chama-se Eric Vermelho. Na manifestação no supermercado apresentaram um "cheque-miséria" que sintetiza as palavras de ordem da esquerda em geral. O custo do transporte das pessoas não é barato. Quem paga? Estudantes da UERJ? Tenho dúvidas. Discordo, portanto, de suas observações. Quando eu vejo o surgimento de movimentos como os sem teto, as "margaridas" da passeta de brasília e outros, consulto logo o livro de Wilfred Burchet (Vietnam, the inside story of the guerrilla war) e os escritos de Mao-Tse-Tung sobre a guerra popular (sem falar na obra de Gramsci). A semelhança com o que está ocorrendo no Brasil é espantosa. Penso que o movimento dos sem-teto é a abertura de mais uma frente de luta política, organicamente ligada a outras frentes, no campo (MST), nos sindicatos (CUT), na política partidária (PT), na igreja católica (CNBB) e até no ministério público, vide o "torquemada do planalto", Luiz Francisco soares. Todas essas "frentes" devem estar sob um comando único. É bom lembrar que o MST também começou modesta e pacificamente. Chegará a hora de os sem teto radicalizarem também. Cordialmente
DESINFORMATZIA Cada vez que leio as páginas de notícias internacionais dos jornais brasileiros, especialmente de O Globo, fico mais abismado com a moleza que têm os ditos "correspondentes estrangeiros". Afinal, o que fazem essas figuras? Simplesmente copiam as matérias do New York Times, ou da Newsweek, ou do Washington Post, ou da Time, enfim, da grande imprensa liberal americana, e manda para seu jornal de origem como se fosse coisa original. Em tempos antigos, nos quais o acesso a esses jornais e revistas era difícil no Brasil, até que era compreensível que nos deixássemos enganar por esse tipo de coisa. Agora, em plena era da internet, na qual basta digitar alguns nomes para ler esses veículos na íntegra?! Não entendo por que os jornais continuam a pagar profissionais que, simplesmente, não têm trabalho jornalístico nenhum! É só ler a matéria que o correspondente de O Globo fez sobre o Joseph Lieberman (e que deixou tão desinformado o leitor que mencionei acima), e notar que é cópia direta do NY Times, com todos os mitos que quem lê o resto da imprensa americana sabe ser apenas mitos (como mostrei semana passada): Lieberman é um representante da ala conservadora do Partido Democrata; é um judeu ortodoxo muito cioso de sua tradição e, por isso, está despertando a fúria dos anti-semitas (que anti-semitas, além do Rev. Al Sharpton, amigo íntimo de Hillary Clinton?!); sua nomeação causa escândalo porque os EUA ainda são um país anti-semita (isso no país em que os judeus conquistaram maior aceitação social do que em qualquer outro em toda a sua história) etc. etc. etc. O que me pergunto é: a esta altura das coisas, quem ainda se deixa enganar por esse tipo de jornalismo de quinta? O pior é que o New York Times nem mesmo é fonte fidedigna e "objetiva", como leitores do delicioso site de Ira Stoll, smartertimes.com, estão carecas de saber (John Strausbaugh, com algum atraso, publicou esta semana no NY Press uma excelente introdução ao site de Stoll). Nesse sentido, aliás, é muito instrutivo reler o artigo de Bruce Antonio Laue no "Taki Top Drawer" (no mesmo NY Press; último artigo da página "linkada") de 12 de julho, no qual ele descrevia como era o trabalho dos correspondentes estrangeiros nos tempos em que seu pai era correspondente do NY Times, e comparava com o absurdo jornalismo atual desse jornal: "Quando meu pai estava em Roma como o editor estrangeiro de fotografia para o New York Times, e meu primo Camille Cianfara era o chefe de escritório do Times em Madri, esperava-se que um repórter enviasse sua história do lugar do qual estava encarregado - com a regra não-escrita de que ele nunca deveria se intrometer na história. De uma entrevista, esperavam-se perguntas, não conversas. E esperava-se que os repórteres transmitissem não apenas eventos, mas o ambiente emocional, e que o fizessem com economia de palavras e pouca auto-promoção. Os artigos eram baseados em eventos testemunhados pessoalmente. Os fatos eram verificados, e mais de uma vez. O patrão de meu pai, Arnoldo Cortesi, chefe do escritório de Roma, costumava levá-lo à loucura com exigências de múltiplas fontes para qualquer história; quando uma matéria era enviada a Nova Iorque para a Magazine, era verificada 'six ways for Sunday' [obviamente, trata-se de expressão idiomática, por causa da rima; ela quer dizer que era verificado de várias maneiras]. Embora o Times nunca permitisse que uma notícia fosse publicada no estilo de uma coluna, o conhecimento que seus repórteres tinham dos países que cobriam fazia com que suas matérias fossem nuançadas e confiáveis. Para adquirir essa capacidade, esperava-se que os correspondentes morassem no Continente por vários meses, se não anos." O artigo segue mostrando como a imprensa americana, e especialmente o Times, foi entrando em decadência e suas reportagens foram deixando de ser confiáveis. Agora, imaginem se Laue lesse O Globo ou seus similares...
Leio O Globo há muitos anos, e nunca tinha visto dois artigos do mesmo sujeito (não-colunista) em dois dias seguidos na página de opinião. Pelo visto, o sr. Osias Wurman tem bastante prestígio dentro do jornal. O seu artigo de terça-feira, sobre o péssimo filme Kadosh, é muito oportuno, por defender a tradição judaica contra os ataques desse filme - que se insere na linha de ódio à religião que normalmente produz filmes contra o cristianismo, mas de vez em quando escolhe outra religião. Já o artigo de segunda-feira, intitulado "Jerusalém pertence a todos", só pode ser algum tipo de piada. Eis a tese que Wurman ocupou meia página do Globo para defender: como Jerusalém é uma cidade sagrada para judeus, cristãos e muçulmanos, como ela é uma cidade que "pertence" a esses três povos, ela deve ficar... sob a administração de Israel! O quê? Não entendeste a lógica usada por Wurman, caro leitor? Nem eu. E, francamente, já desisti. Mas ele conta um bocado de mentiras no caminho tortuoso de seu arrazoado: alega que Israel sempre respeitou os direitos humanos dos muçulmanos (tá, então tá), simplesmente porque ninguém nunca foi doido a ponto de atacar a Mesquita de Omar (o que Wurman não diz que é isso só nunca aconteceu porque fazê-lo seria declarar guerra imediata a todo o mundo islâmico), e que Israel sempre cumpriu o que prometeu aos árabes e à ONU (será que ele falaria isso com a cara séria?!); e ainda insiste na história de que foram os árabes os culpados pelos resultados inconclusivos da recente reunião de Camp David. Wurman termina o artigo celebrando a importância, para os judeus, de Jerusalém. OK, disso nós já sabemos. Se você pretende defender que Israel controle Jerusalém porque a cidade é importante para os judeus, tudo bem, é uma opinião até respeitável; agora, defender que Israel controle Jerusalém porque ela é uma cidade sagrada para as três principais religiões monoteístas só pode ser brincadeira.
Mandei a cartinha a seguir para O Globo, quarta-feira desta semana. Duvido que eles a publiquem, até pela extensão (eles costumam publicar minhas cartas, mas não quando elas são longas), mas algum barulho lá dentro isso vai causar, a não ser que o senso moral deles já esteja tão pervertido que nem a defesa do estupro os incomoda mais. A carta é um resumo de dois artigos de Wendy McElroy para o LewRockwell.com: "The 'Monologues' Ride Again" e "Feminists Who Celebrate Rape". FROM: Alvaro Velloso de Carvalho Rio, 23 de agosto de 2000 Sr. Editor, Só agora percebi que está em cartaz no Rio de Janeiro a peça de teatro "Os Monólogos da Vagina", com produção de figuras bastante populares no nosso teatro. Como "O Globo" deu um destaque significativo à produção, imaginei que, nas matérias que trataram da peça, eu fosse descobrir qual de suas versões está sendo mostrada em nossos palcos. Nada descobri, e, por isso, escrevo para perguntar. Caso o senhor não se lembre do caso, relembro-o em linhas gerais: Nos "Monólogos da Vagina", mulheres (que representam vaginas) falam sobre suas experiências e preferências, em episódios breves. Um desses episódios era intitulado "The Little Coochi Snorcher that Could", referência a uma menina de 13 anos que chamava sua vagina de "Coochi Snorcher" (intraduzível num jornal de família). Nesse episódio, uma mulher de 24 anos embebeda a menina e, aproveitando-se dessa condição, faz sexo com ela. Isso, por qualquer definição, é estupro. No entanto, eis o que a menina de 13 anos declara no texto da peça: "Now, people say it was a kind of rape... Well, I say if it was rape, it was a good rape..." ["Agora, dizem que foi um tipo de estupro... Bem, eu digo que, se foi estupro, foi um bom esturpo..."] Na conclusão da fala, a menina celebra: "I'll never need to rely on a man." ["Nunca precisarei contar com um homem."] Bom, quando esta cena edificante foi mostrada na Universidade de Georgetown, Robert Swope, um colunista do jornal da universidade ("The Hoya") lançou uma pergunta incômoda na sua coluna: "Existe tal coisa como um 'estupro bom'? Por que o estupro só errado quando um homem o comente, mas quando é cometido por uma mulher contra outra, e esta, aliás, tem apenas 13 anos, o fato é celebrado e um clube universitário o patrocina?" Mal sabia o rapaz que, ao mostrar um absurdo patente numa peça que se diz feminista, ele atrairia para si a fúria dos editores do jornal: "The Hoya" se recusou a publicar seu artigo, suas colunas anteriores foram retiradas dos arquivos do jornal na internet, sob a alegação de que sua crítica era "uma afronta às mulheres". O caso foi parar em toda a grande imprensa norte-americana: entre outros, Wall Street Journal, Salon, National Review, Washington Times, Weekly Standard publicaram artigos dando seu apoio a Swope. O autor do roteiro de "O Exorcista", William Peter Blatty, ex-aluno da Georgetown, declarou: "Com tudo o que o demônio diz e faz na minha novela, só quando eu li a declaração de apoio do 'The Hoya' a 'Os Monólogos da Vagina', e sua supressão do artigo de Robert Swope, eu compreendi o verdadeiro significado da palavra 'obscenidade'." O caso era tão gritante, a cena tão absurda, que as próprias autoras começaram a divulgar versões "adaptadas" de sua peça. Em algumas delas, a expressão "estupro bom" foi cortada da cena; em outras, todo o episódio da "Little Coochi Snorcher that Could" foi retirado. A peça foi adaptada no Brasil e ninguém teve a coragem de escrever uma linha a respeito desse problema. Fica, pois, a minha dúvida: na versão dos produtores brasileiros, existe tal coisa como um estupro bom? Atenciosamente,
ARTIGO DA SEMANA Ninguém com algum sentimento fica alheio ao artigo de José Maria e Silva publicado no "Opção" de Goiânia, e republicado na página do prof. Olavo de Carvalho. Silva conta, com estilo brilhante, um crime monstruoso acontecido no município de Anincuns: três jovens, um deles menor de 18 anos, mataram brutalmente um rapaz e estupraram e depois mataram sua namorada. Silva mostra como a socio-baboseira do Estatuto da Criança e do Adolescente é incapaz de prevenir e punir esse tipo de crime brutal e como, desde a promulgação desse estatuto desastroso, a criminalidade subiu assustadoramente entre menores de 18 anos. Isso porque: "De acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente, os atos que aqueles jovens praticaram -- assalto, seqüestro, tortura, curra, assassinatos e queima de cadáveres -- só podem ser explicados por sua origem social -- quatro sinas de miséria ante o privilégio dos ricos. Cristalizou-se entre os intelectuais brasileiros a idéia de que todo crime tem causas sociais e que basta equacionar a distribuição de riqueza para voltarmos ao Jardim do Éden. Esse pensamento, oriundo da esquerda universitária, é tão forte que impregna até a elite empresarial e, por medo da pecha de nazi-fascistas, são raros os que ousam desafiá-lo. A Constituição de 1988 já reflete esse espírito ao prescrever uma pena máxima de 30 anos para qualquer criminoso, por mais cruéis e renitentes que sejam os seus crimes. E o que é mais grave: se fossem brasileiros, Calígula e Hitler seriam considerados recuperáveis e, com apenas cinco anos de cadeia, estariam soltos, por bom comportamento. É o que vai acontecer com Kléber Batista da Silva, que antes de barbarizar o casal de Anicuns já tinha assassinado Pedro Lourenço Correia, em Sanclerlândia, para roubar-lhe uma bicicleta e dois reais." E, em outro trecho do artigo, a indicação precisa da origem desse tipo de pensamento: "Os Mártires Sociais -- Todo criminoso é um mestre no exercício da astúcia. O sujeito que age como as feras, sem mover-se pela fome que as impele, é alguém que perdeu todos os princípios. Por isso, acreditar que alguém assim possa ser recuperado com trabalho, esporte, lazer e conselho é ter fé na conversão do Diabo. Entretanto, os grupos de direitos humanos e os agentes da Pastoral Carcerária parecem acreditar que, um dia, o Inferno vai virar Paraíso. Muito mais marxistas do que cristãos e sempre dispostos a ver mártires sociais onde só existem anomalias humanas, os agentes pastorais deixaram de oferecer aos criminosos, mesmo aos bárbaros, a possibilidade do arrependimento ou a eternidade do inferno. Em lugar de prescrever penitências segundo a gravidade do crime, como se fazia antigamente, preferem oferecer a terapia de uma religião sociológica, que parece ter como hino os versos de Chico Buarque e Rui Guerra -- --não existe pecado do lado de baixo do Equador--." É curioso que, domingo passado, Jenny McCartney tenha publicado, no Sunday Telegraph, um artigo mostrando como a juventude britânica tem cometido um número absurdo de crimes, contando inclusive o terrível caso das duas adolescentes que mataram uma mulher de 87 anos, sua vizinha e que sempre tinha sido amigável com elas, e depois saíram na vizinhança se orgulhando de ter cometido um assassinato. McCartney sugere que os adolescentes estão "experimentando" cometer crimes, como quem experimenta drogas - reflexo do crescente niilismo que impregna a cultura inglesa (e não só ela). Pois bem, aí está: niilismo cultural e libertinagem penal. As causas não só não se excluem, mas, juntas, formam a combinação perfeita para a produção de delinqüentes juvenis em massa. |
|||||